Redes Híbridas no Azure: VPN, ExpressRoute e Routing para Ambientes Windows Server
- Rodrigo Motta

- 21 de nov. de 2025
- 5 min de leitura
A construção de um ambiente híbrido moderno envolve muito mais do que sincronização de identidade, servidores e segurança. O coração de tudo é a rede. Sem uma conectividade híbrida estável, segura e com rotas bem planejadas, nenhum ambiente Windows Server — ou plataforma corporativa — funciona como deveria.
Neste artigo, vamos explorar em profundidade como implementar e operar redes híbridas no Azure usando VPN Site-to-Site, ExpressRoute, BGP, UDR, gateways e recursos nativos. Um guia prático e avançado, ideal para profissionais que administram ambientes Windows Server e para quem está se preparando para o AZ-800 e AZ-801.
1. O que é uma Rede Híbrida?
Uma rede híbrida conecta o ambiente local (datacenter ou empresa) ao Azure, permitindo:
Extensão de sub-redes para a nuvem
Replicação de Active Directory
Acesso seguro a VMs, bancos e serviços PaaS
Sincronização de identidade
Gerenciamento de servidores via Arc
Backup, monitoramento e automações híbridas
Ela é composta por três pilares:
Conectividade (VPN ou ExpressRoute)
Roteamento (System Routes, UDR, BGP)
Segurança (firewalls, NSG, ASG)
Uma rede híbrida mal planejada resulta em:
Latência
Intermitências e quedas
Replicações falhando
Perda de desempenho
Erros de autenticação, especialmente com AD
2. VPN Site-to-Site (S2S) — A Base da Conectividade Híbrida
A VPN S2S é o método mais comum para conectar um ambiente local ao Azure. Ela usa IPsec/IKEv2 para criar túneis criptografados através da Internet.
2.1 Como funciona (fluxo detalhado)
O firewall/roteador on-prem inicia um túnel IPsec IKEv2.
O túnel conecta na interface pública do Azure VPN Gateway.
O tráfego viaja pela Internet, mas fica protegido por cifragem forte.
O Azure distribui o tráfego para a VNet e suas sub-redes.
Compatível com:Fortigate, Palo Alto, Cisco ASA, SonicWall, Mikrotik, Sophos, pfSense, entre outros.
2.2 Modelos de Gateway VPN no Azure (SKUs e desempenho)
SKU | Throughput aproximado | BGP | Recomendações |
VpnGw1 | ~650 Mbps | ✔ | Ambientes menores |
VpnGw2 | ~1 Gbps | ✔ | Corporativo padrão |
VpnGw3 | ~1,25 Gbps | ✔ | Produtivo crítico |
VpnGw5 | ~10 Gbps | ✔ | Altíssimo volume |
UltraPerf | ~10 Gbps | ✔ | Cenários premium |
2.3 Route-based vs Policy-based
Route-based (Recomendado)
Suporta múltiplas redes e múltiplos túneis
Suporta BGP
Essencial para ambientes complexos
Menos suscetível a erros de política
Policy-based (Não recomendado)
Limitado
Só funciona com 1 túnel
Não suporta BGP
Apenas para cenários legados
2.4 Quando usar VPN?
Primeira fase de ambiente híbrido
Ambientes pequenos e médios
Varejo com muitas filiais (ex.: lojas)
Backup de conexão ExpressRoute
Conectividade temporária
3. ExpressRoute — Conectividade Privada e Profissional
O ExpressRoute é a forma mais avançada e estável de conectar ambientes corporativos ao Azure.
Diferente da VPN, o ExpressRoute não usa a Internet.
Ele funciona através de circuitos privados Layer 3 entre o cliente, o provedor e o Azure.
Ideal para:
Baixa latência
Altíssima disponibilidade
Cargas críticas
Sincronização massiva
Bancos, ERPs, varejo, indústria 4.0
3.1 Modelos de ExpressRoute
1. ExpressRoute via Provedor Parceiro (mais comum no Brasil)
Você contrata um provedor autorizado que já possui conexão com a Microsoft.
Principais provedores no Brasil:
Equinix
Lumen (CenturyLink)
Claro/Embratel
Algar
UOL Diveo
TI Sparkle
2. ExpressRoute Direct
Conexão direta de 10 Gbps ou 100 Gbps à Microsoft.
Indicado para:
Bancos
Telecom
Streaming
Grandes varejistas
Ambientes com replicação pesada
3.2 Como contratar o ExpressRoute (Passo a Passo real)
Aqui está o fluxo exato, do zero até entrar em operação:
Passo 1 — Escolher o provedor
Você inicia pedindo orçamento para um provedor autorizado.
Eles pedirão:
Localização da empresa
Capacidade desejada (50 Mbps a 10 Gbps)
SLA
Redundância
Cross-connects
Termo mínimo de contrato
Passo 2 — Contratar o circuito
O provedor entrega:
Link MPLS ou WAN privada
Porta física (1G, 10G, 100G)
Rota até o POP do Azure
Cross-connects
SLA
Passo 3 — Criar o ExpressRoute Circuit no Azure
No portal → Criar → “ExpressRoute”
Você irá definir:
Provedor
Local (Peering Location)
Velocidade (ex.: 500Mbps / 1Gbps)
SKU (Standard, Premium ou Local)
Depois disso, o Azure gera:
🔑 Service Key (S-Key)
Esse código é enviado ao provedor para que ele habilite o circuito.
Passo 4 — Provedor ativa o circuito
O status evolui de:
Not Provisioned → Provisioning → Provisioned
Passo 5 — Configurar Peerings
Existem dois peerings importantes:
Private Peering
Conecta o datacenter às VNets
Usa BGP
Base da comunicação híbrida
Microsoft Peering
Conecta à Microsoft 365
Conecta a PaaS (Storage, SQL, etc.)⚠️ Só deve ser habilitado após análise, pois pode ser mal interpretado e gerar custos desnecessários.
Passo 6 — Criar o ExpressRoute Gateway em sua VNet
A VNet precisa de um gateway especial:
Tipo: ExpressRoute
SKUs: ErGw1 / ErGw2 / ErGw3 / ErGw5
Esse gateway recebe as rotas do ExpressRoute via BGP.
💸 3.3 Quanto custa o ExpressRoute?
O custo é composto de 3 partes:
Azure
Circuito mensal
Premium Add-on (se necessário)
Egress (saída do Azure)
Provedor
Circuito MPLS / WAN
Cross-connect
Porta física (1G/10G)
Infra local
Firewalls com BGP
Switches
Redundâncias
Faixa real no Brasil:Um circuito de 1 Gbps costuma ficar entre R$ 15.000 a R$ 40.000 / mês, dependendo da arquitetura e região.
4. Roteamento no Azure (Avançado)
O Azure usa três níveis de roteamento:
System Routes — rotas padrão definidas pelo Azure
User Defined Routes (UDR) — rotas personalizadas
BGP Routes — rotas dinâmicas via ExpressRoute ou VPN
4.1 Quando usar UDR?
Forçar tráfego para firewall (Azure Firewall ou Fortigate NVA)
Controlar comunicação leste-oeste
Restringir saída para Internet
Criar cenários hub-and-spoke
Direcionar tráfego para appliances específicos
🔁 5. BGP — A espinha dorsal do híbrido
O BGP é responsável por:
Aprender rotas automaticamente
Failover dinâmico
Multi-site
Multi-homed
Multipath
ExpressRoute + VPN simultâneos
Detalhes que caem no AZ-800/801:
ASN do cliente (ex.: 65010)
ASN do Azure (12076)
Prefixos aceitos (mínimo /29)
Tabelas de rota
Preferência de caminho
Exemplo de tabela BGP real:
Network NextHop AS Path
10.5.0.0/16 192.168.1.1 65010 12076
10.20.0.0/16 192.168.1.1 65010 12076
6. Firewalls em Ambientes Híbridos
Ambientes híbridos normalmente utilizam:
Azure Firewall
Fortigate (NVA no Azure)
Palo Alto
Cisco ASAv
Check Point Cloudguard
Com eles você:
Inspeciona tráfego
Cria regras leste-oeste
Segmenta VNets
Implementa zero trust network
Aplica TLS inspection
Integra logs no Sentinel
7. Arquiteturas Reais de Mercado
🔹 Cenário 1 — VPN como primário + ExpressRoute como redundante
Muito utilizado em varejo e empresas distribuídas.
🔹 Cenário 2 — Hub-and-Spoke com firewall central
Padrão corporativo moderno.
🔹 Cenário 3 — Dual ExpressRoute com provedores diferentes
Para empresas que não podem parar.
8. Troubleshooting Avançado
Ferramentas essenciais:
Network Watcher
Connection Monitor
Packet Capture
Topology Viewer
NSG Flow Logs
Azure Diagnostics
9. Conclusão
Construir uma rede híbrida sólida é mais do que ligar um túnel VPN. Exige planejamento, roteamento, redundância, segurança e conhecimento profundo sobre como o Azure interage com ambientes Windows Server.
Ao dominar VPN, ExpressRoute, BGP e UDR, você cria uma arquitetura capaz de suportar:
Replicações críticas
Servidores híbridos
Ambientes modernos
Integrações corporativas
Alta disponibilidade
E é exatamente esse tipo de conhecimento que a Microsoft cobra nas certificações AZ-800 e AZ-801, e que as empresas esperam de um especialista em infraestrutura híbrida.

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